Diagnóstico: Imigrante -Eu segui o "Manual da vida"

As reflexões psicológicas sobre escolher viver uma vida fora e ter que se reeinventar em outra cultura, clima e idioma.

Mayara Peres

5/8/20243 min read

Eu tentei seguir o manual da vida...

Segui o que eu chamo de “manual da vida”: estudei, me esforcei, tentei dar orgulho aos meus pais, construir uma carreira sólida e me encaixar nos padrões que o mundo parecia impor. Mas, com o tempo, percebi que esse manual não leva em conta a complexidade da mente humana. Psicologicamente, seguir regras externas sem questionar seus próprios desejos e necessidades gera um vazio silencioso: conquistas que deveriam trazer sentido acabam pesando, expectativas externas tornam-se correntes e a identidade se fragmenta. Hoje, ainda estou escrevendo minha história sem um manual, e isso é assustador e, às vezes, solitário. Mas também é libertador, porque finalmente estou aprendendo a criar minhas próprias regras, entendendo que propósito e realização não vêm apenas do que se faz, mas de como se sente enquanto se faz.

Ser imigrante não é só morar em outro país. É carregar consigo uma sensação constante de deslocamento, de fragmentação. Aqui, sinto que sou sempre “a imigrante”, aquela que está tentando se adaptar, se provar e se encontrar, mas que muitas vezes não sabe exatamente quem é agora.

Formada em Psicologia, com pós-graduação em Psicopedagogia, atleta de maratonas aquáticas e viajante apaixonada, eu vim cheia de experiências, conquistas e sonhos realizados. Mas chegar aqui trouxe uma sensação estranha: meu diploma não vale tanto quanto eu pensei, minha trajetória atlética ficou para trás, e o que sobra é uma versão de mim fragmentada e sem direção clara.

O peso da vida profissional e financeira

Viver em um país caro como a Holanda me fez perceber o quanto o dinheiro ainda dita regras invisíveis. Antes, no Brasil, algumas conquistas e experiências eram quase “grátis”. Aqui, tudo tem preço elevado — e, junto com ele, vem aquela cobrança interna: quem eu sou se não produzo, se não ganho, se não contribuo de maneira visível?

É difícil separar autoestima de produtividade quando o mundo parece medir valor por resultados e saldo bancário. Por mais que eu colecione experiências, viagens, aprendizados e momentos, existe uma sensação constante de que nada é suficiente. Essa luta interna mexe profundamente com meu mental e faz com que cada realização precise ser validada externamente.

Redes sociais: expressão ou limitação?

No Instagram, tento mostrar quem eu sou. Mas 30 segundos, 1 minuto… nunca é suficiente. A tela pequena não comporta todas as nuances da minha experiência. Muitas vezes me vejo representando uma imagem que não sou completamente, e isso aumenta a sensação de fragmentação: como ser autêntica e inspiradora, mas ainda assim real, com todas as dúvidas e vulnerabilidades que carrego?

Quero que meu conteúdo inspire, mas também que pegue na mão do outro viajante, que se sente perdido diante de sonhos grandes e da solidão de um recomeço. Porque eu sei: é assustador ter grandes objetivos e se sentir sozinha. Mas não é impossível. A resposta só pode ser sim, se a gente tentar. Caso contrário, o “e se…” nunca acaba.

Quem sou eu agora?

Essa é a pergunta que me acompanha diariamente. Quem é a Mayara que vive em Amsterdã? A psicóloga que ainda sente falta de exercer sua profissão? A atleta que aprendeu a disciplina e o foco, mas que hoje vê essas conquistas como memórias? A viajante que coleciona momentos, mas ainda busca propósito?

Ser imigrante, na minha experiência, é viver nessa tensão: entre o que fui, o que conquistei e o que ainda não sei que posso ser. Mas é também um convite para reinventar-se constantemente, para se questionar sem culpa e, principalmente, para aprender que propósito não precisa ser linear.

Uma reflexão final

A vida é um bilhete só de ida. E talvez esse seja o maior aprendizado de viver longe de casa: não dá para voltar no tempo, mas dá para redefinir seu caminho, mesmo em fragmentos. Cada viagem, cada experiência, cada conquista, mesmo que pareça pequena, é um passo para me encontrar de novo.

E a você, viajante que lê este texto: se sente perdido(a), fragmentado(a) ou inseguro(a) diante de seus sonhos, saiba que não está sozinho(a). O primeiro passo é tentar. Porque só tentando, a resposta pode ser sim — e, quando isso acontece, o “e se…” finalmente se transforma em história.

Bon voyage!